Segunda edição do Boletim Semanal CKM. Nesta semana, os destaques giram em torno da terapia combinada cardio-renal (CONFIDENCE), da superioridade da tirzepatida sobre semaglutida em múltiplos desfechos, da expansão dos GLP-1 RA para DRC avançada e diálise, e de atualizações importantes do KDIGO 2026 e ADA 2026.

Destaques da Semana

Tratamento

CONFIDENCE: Finerenona + Empagliflozina supera monoterapia na DRC diabética

O estudo CONFIDENCE, publicado no NEJM, demonstrou que a combinação de finerenona com empagliflozina resultou em redução de 52% na razão albumina/creatinina urinária (UACR) no dia 180 — superior a cada agente isoladamente. Este é o primeiro estudo randomizado a demonstrar superioridade da terapia combinada ARM não-esteroidal + iSGLT2 sobre monoterapia.

O perfil de segurança foi aceitável: hipercalemia levando à descontinuação ocorreu em menos de 3% no grupo combinação. Houve queda de TFGe >30% em 6,3% no grupo combinação vs 3,8% com finerenona isolada e 1,1% com empagliflozina isolada — dado que exige monitorização nas primeiras semanas.

Implicação para o protocolo

Considerar início simultâneo de finerenona + empagliflozina em pacientes com DRC e DM2 com UACR elevada. Monitorar potássio e TFGe nas primeiras 4 semanas. Nova estratégia de primeira linha para proteção cardio-renal máxima.

Fonte: Bakris GL et al. N Engl J Med. 2025 (CONFIDENCE Trial)

Metabólico

SURMOUNT-5: Tirzepatida superior à semaglutida em peso, rim e risco cardiovascular

A análise post-hoc do SURMOUNT-5 no European Heart Journal Open revelou que a tirzepatida reduziu o risco cardiovascular em 10 anos de forma significativamente maior que a semaglutida: redução absoluta de 2,4% vs 1,4% (p<0,001). Em termos populacionais, isso poderia prevenir 2 milhões de eventos cardiovasculares nos EUA em 10 anos vs 1,15 milhão com semaglutida.

Dados do SURMOUNT-1 em 176 semanas confirmam redução sustentada da albuminúria com tirzepatida: 8,4% em não-diabéticos e 31,1% em pacientes com DM2, sem alterações adversas na TFGe. A perda de peso foi de 20,2% com tirzepatida vs 13,7% com semaglutida em 72 semanas.

Implicação para o protocolo

Priorizar tirzepatida em pacientes CKM com obesidade e alto risco cardiovascular, especialmente quando coexistem DRC e DM2. O perfil dual GIP/GLP-1 oferece proteção renal, cardiovascular e metabólica superior ao GLP-1 isolado.

Fonte: European Heart Journal Open 2025; Diabetes Obes Metab 2026 (SURMOUNT-1, 176 semanas)

Renal

GLP-1 RA consolida papel nefroprotetor: agora recomendado até em diálise

Meta-análise no Nephrology Dialysis Transplantation (2026) confirmou que GLP-1 RA reduzem significativamente desfechos renais compostos, declínio de função renal e progressão de albuminúria — com efeitos similares em pacientes com e sem diabetes. O FLOW trial (NEJM 2024) segue como referência, com semaglutida reduzindo eventos renais maiores em 24% e mortalidade cardiovascular em 29%.

O ADA 2026 Standards of Care incorporou essas evidências com mudanças práticas: GLP-1 RA é agora preferido para DRC avançada (TFGe <30 mL/min) pelo menor risco de hipoglicemia, e pacientes em diálise podem ser iniciados ou mantidos em terapia baseada em GLP-1 para redução de risco cardiovascular e mortalidade.

Implicação para o protocolo

Expandir uso de GLP-1 RA para DRC avançada (TFGe <30) e pacientes em diálise, conforme ADA 2026. Não restringir à população diabética — evidências sugerem benefício independente do status glicêmico.

Fonte: NDT 2026; NEJM 2024 (FLOW); ADA Standards of Care 2026

Cardiovascular

Finerenona eficaz em ICFEp em todo o espectro de risco renal

Análise do FINEARTS-HF demonstrou que a finerenona melhora consistentemente desfechos clínicos, status de saúde e albuminúria em pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp), independentemente do grau de risco renal. Entre 5.797 participantes, 36% tinham risco renal alto ou muito alto.

A análise agrupada FINE-HEART mostrou que a hospitalização por IC foi o tipo de evento prevenido mais precocemente — significado estatístico em 6,1 meses vs 10,2 meses para o desfecho renal composto. O benefício cardiovascular precoce reforça a importância de iniciar finerenona sem aguardar evidência de progressão renal.

Implicação para o protocolo

Considerar finerenona em pacientes com ICFEp independentemente do estágio de DRC. O benefício cardiovascular é precoce (6 meses) e consistente em todo o espectro renal. Não postergar início por TFGe baixa.

Fonte: FINEARTS-HF 2025; FINE-HEART Pooled Analysis, Nature Medicine 2024

Guidelines

KDIGO 2026 + ADA 2026: dupla atualização no manejo da DRC diabética

O KDIGO lançou o draft do guideline 2026 para Diabetes e DRC com três focos: novo capítulo sobre definições, prevenção e avaliação de risco; monitorização glicêmica; e farmacoterapia abrangente. A revisão incorporou estudos até julho 2025 com avaliação GRADE.

O ADA 2026 complementa com mudanças relevantes: meta de PAS <120 mmHg para alto risco cardiovascular/renal; endosso inédito da NKF à seção de DRC; e recomendação de equação AHA PREVENT (que incorpora TFGe e UACR) para estratificação de risco. Pela primeira vez, há alinhamento explícito entre as duas principais diretrizes sobre o papel dos GLP-1 RA na DRC avançada.

Implicação para o protocolo

Atualizar protocolos conforme KDIGO 2026 e ADA 2026: priorizar GLP-1 RA em DRC avançada, meta de PAS <120 mmHg em alto risco, e incorporar equação AHA PREVENT para estratificação.

Fonte: KDIGO 2026 Diabetes-CKD Draft; ADA Standards of Care 2026, Diabetes Care 2026

Epidemiologia

JACC propõe integração de MASLD/MASH ao espectro CKM: nasce o conceito CKLM

Artigo publicado no JACC em abril de 2026 propõe a integração formal da doença hepática esteatótica metabólica (MASLD/MASH) ao espectro CKM, criando o conceito CKLM (Cardiovascular-Kidney-Liver-Metabolic). Os autores apresentam evidências de mecanismos compartilhados: inflamação sistêmica, lipotoxicidade e remodelamento fibrótico que unem essas condições.

O artigo defende a transição de estudos isolados para basket/platform trials com protocolos master. Para nefrologistas, isso é particularmente relevante: muitos pacientes com DRC têm MASLD não-diagnosticada que amplifica o risco cardiovascular e hepático simultaneamente.

Implicação para o protocolo

Rastrear MASLD/MASH em pacientes CKM — a presença concomitante amplifica riscos. Considerar avaliação hepática não-invasiva (FIB-4, elastografia) em pacientes com DRC + síndrome metabólica.

Fonte: JACC 2026;87(15):2006-2033

O que isso muda na prática

Esta semana marca um ponto de inflexão: entramos oficialmente na era da terapia combinada cardio-renal-metabólica. O CONFIDENCE é o primeiro estudo randomizado a demonstrar que finerenona + empagliflozina juntas são superiores a cada droga isoladamente na redução de albuminúria. Isso muda a prática porque até agora usávamos essas drogas sequencialmente; agora há evidência para iniciá-las simultaneamente.

A consolidação dos GLP-1 RA como nefroprotetores — agora com dados em DRC avançada, diálise e até em pacientes não-diabéticos — representa uma expansão sem precedentes. O ADA 2026 já incorporou essas evidências, recomendando GLP-1 RA como preferência em TFGe <30. Na prática, isso significa que pacientes que antes tinham poucas opções farmacológicas agora têm um arsenal robusto.

Os dados da tirzepatida continuam impressionantes: superioridade sobre a semaglutida em redução de peso, risco cardiovascular e proteção renal. O perfil dual GIP/GLP-1 parece oferecer vantagens clinicamente significativas, especialmente no paciente CKM clássico com obesidade, DRC e alto risco CV.

Por fim, a proposta de integrar MASLD/MASH ao framework CKM (conceito CKLM) no JACC é um chamado direto ao nefrologista: precisamos rastrear doença hepática nos nossos pacientes. A presença concomitante amplifica riscos de forma que não podemos ignorar.

Referências

  1. Bakris GL, Agarwal R, Anker SD, et al. Finerenone with Empagliflozin in Chronic Kidney Disease and Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2025. (CONFIDENCE Trial)
  2. Jastreboff AM, Aronne LJ, Stefanski A, et al. Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2025. (SURMOUNT-5)
  3. Tirzepatide compared with semaglutide and 10-year cardiovascular disease risk reduction in obesity: post-hoc analysis of SURMOUNT-5. Eur Heart J Open. 2025.
  4. Heerspink HJL, Sattar N, et al. Association of Tirzepatide With Kidney Parameters in Participants With Obesity From SURMOUNT-1 Over 176 Weeks. Diabetes Obes Metab. 2026.
  5. Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al. Effects of Semaglutide on CKD in Patients with Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2024;391:109-121. (FLOW Trial)
  6. Solomon SD, McMurray JJV, et al. Finerenone Across the Spectrum of Kidney Risk in Heart Failure: FINEARTS-HF. 2025.
  7. Agarwal R, Filippatos G, Pitt B, et al. FINE-HEART Pooled Analysis. Nature Medicine. 2024.
  8. KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for Diabetes Management in CKD. Public Review Draft, March 2026.
  9. American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S246.
  10. Cosentino F, Cannon CP, et al. MASLD, MASH, and the CKM Spectrum: A Roadmap for Multiorgan Clinical Trial Design. JACC. 2026;87(15):2006-2033.
  11. GLP-1 Receptor Agonists in CKD: Evolving Evidence and Clinical Application. Nephrol Dial Transplant. 2026.
  12. Albuminuria in Cardiovascular, Kidney, and Metabolic Disorders: A State-of-the-Art Review. Circulation. 2025.