Em 2023, a American Heart Association definiu formalmente algo que a prática clínica já mostrava há anos: hipertensão, diabetes, obesidade e doença renal não são doenças isoladas. São estágios de uma mesma síndrome — e ela é a principal causa de morte no mundo.
A maioria dos pacientes que atendo no consultório não tem uma doença crônica. Tem três. Às vezes quatro. Hipertensão, diabetes tipo 2, obesidade e algum grau de comprometimento renal — frequentemente todos presentes no mesmo paciente, diagnosticados por médicos diferentes, tratados com receitas separadas, sem que ninguém tenha parado para dizer: essas doenças estão conectadas.
Em outubro de 2023, a American Heart Association publicou no Circulation um consenso que mudou a forma como a cardiologia e a nefrologia entendem esse cenário. O documento, liderado por Chiadi Ndumele e colaboradores, definiu formalmente a Síndrome Cardiorrenal-Metabólica — a síndrome CKM.
A tese central é direta: obesidade, resistência à insulina, doença renal crônica e doença cardiovascular não são comorbidades que coexistem por acaso. São manifestações progressivas de um mesmo processo fisiopatológico — e precisam ser tratadas como tal.
Aproximadamente 90% da população adulta brasileira se encontra em algum estágio da síndrome CKM. Isso não é um dado alarmista — é a realidade epidemiológica de um país com 38 milhões de hipertensos, 20 milhões de diabéticos tipo 2, e mais da metade da população adulta acima do peso.
O problema é que a maioria dessas pessoas não sabe que está numa trajetória progressiva. A hipertensão parece controlada com dois comprimidos. A glicemia está "no limite". O peso subiu, mas "sempre foi assim". E ninguém pediu um exame de função renal nos últimos cinco anos.
O paciente com hipertensão e diabetes tipo 2 tem risco cardiovascular 4 vezes maior do que a soma dos riscos isolados. É um efeito multiplicador — não aditivo.
O consenso da AHA definiu cinco estágios, do 0 ao 4, que descrevem a progressão da síndrome. Entender onde você está nessa classificação muda completamente a abordagem terapêutica — porque o tratamento no estágio 1 é radicalmente diferente do tratamento no estágio 3.
Sem excesso de gordura corporal, sem alteração de glicemia, lipídios ou pressão. É o estágio de referência — e o objetivo terapêutico para quem já avançou.
IMC acima de 25 (ou acima de 23 para asiáticos) ou circunferência abdominal elevada. Ainda sem alteração metabólica detectável nos exames de rotina — mas o processo inflamatório sistêmico já está em curso. A gordura visceral (a que se acumula ao redor dos órgãos internos) é metabolicamente ativa: produz citocinas inflamatórias que agridem os vasos, o coração e os rins simultaneamente.
Aqui os exames começam a mostrar alterações: hipertensão arterial, resistência à insulina (pré-diabetes ou diabetes tipo 2), dislipidemia, ou taxa de filtração glomerular entre 60 e 90 ml/min. É o estágio em que a maioria dos pacientes é diagnosticada — e em que a intervenção tem maior potencial de impacto. A progressão daqui para frente é silenciosa e exponencial.
Risco cardiovascular calculado elevado (ASCVD ≥ 7,5%), DRC estágios 3–4 (filtração abaixo de 60), albuminúria persistente ou insuficiência cardíaca assintomática. O paciente não sente nada — mas os órgãos já estão comprometidos. A diferença entre o estágio 2 e o 3 é a diferença entre risco e dano já instalado.
Evento cardiovascular manifesto (infarto, AVC, angina, insuficiência cardíaca sintomática) ou doença renal crônica terminal (estágio 5, necessidade de diálise). A partir deste ponto, o tratamento é de controle de danos e prevenção de recorrência — com mortalidade cardiovascular significativamente elevada.
A conexão entre esses sistemas não é abstrata. Existe um ciclo fisiopatológico concreto que explica por que hipertensão leva a doença renal, que leva a doença cardiovascular, que piora a função renal — e assim por diante.
O excesso de gordura visceral produz um estado de inflamação crônica de baixo grau. Essa inflamação danifica o endotélio (a camada interna dos vasos sanguíneos), promove resistência à insulina e ativa o sistema renina-angiotensina — o principal regulador da pressão arterial e do equilíbrio de sódio e água no corpo.
A hiperativação desse sistema eleva a pressão arterial, aumenta a pressão dentro dos glomérulos renais (as unidades de filtração dos rins), e promove fibrose (cicatrização) progressiva do tecido renal. À medida que os rins perdem função, retêm mais sódio e água, elevam ainda mais a pressão, sobrecarregam o coração — e o ciclo se perpetua.
A formalização da síndrome CKM pela AHA não foi apenas acadêmica. Ela trouxe mudanças concretas na forma de avaliar e tratar pacientes. A principal delas: não tratar cada doença isoladamente.
O consenso recomenda que todo paciente a partir do estágio 2 seja avaliado com um painel integrado que inclua, no mínimo: função renal (creatinina, taxa de filtração estimada, relação albumina/creatinina na urina), perfil metabólico completo (glicemia de jejum, hemoglobina glicada, insulina, lipídios), e cálculo de risco cardiovascular adaptado para a presença de doença renal.
Além disso, o documento destaca três classes de medicamentos que demonstraram benefício em múltiplos eixos da síndrome simultaneamente:
A lógica é tratar a síndrome, não a doença. Um paciente com diabetes tipo 2, hipertensão e albuminúria não precisa de três médicos com três abordagens — precisa de um plano terapêutico integrado que aborde os três eixos simultaneamente.
Pode parecer contraintuitivo que um nefrologista esteja na linha de frente de uma síndrome que inclui coração e metabolismo. Mas faz sentido quando se entende que o rim é o primeiro órgão a mostrar sinais de dano — e o último a ser investigado na maioria dos check-ups.
Uma queda sutil na taxa de filtração glomerular ou o aparecimento de microalbuminúria são, com frequência, os primeiros marcadores detectáveis de doença cardiovascular futura. O rim é, ao mesmo tempo, vítima e sentinela do processo CKM. Por isso, a avaliação nefrológica deveria fazer parte da rotina de todo paciente com hipertensão, diabetes ou obesidade — não apenas de quem "já tem problema nos rins".
Se você convive com hipertensão, diabetes e alteração renal — ou quer entender em que estágio da síndrome CKM você está — essa avaliação integrada pode mudar a trajetória da sua saúde.
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