Toda semana, reviso as principais publicações em Nefrologia, Cardiologia, Diabetes e Síndrome CKM para manter os protocolos APEX baseados na evidência mais atual. Este é o primeiro boletim — uma curadoria do que considero relevante para quem acompanha de perto a saúde renal e cardiometabólica.

Destaques da Semana

Cardiovascular

Finerenona agora tem evidência em DRC não-diabética

O estudo de fase III FIND-CKD reportou que a finerenona retarda significativamente a progressão da doença renal crônica em pacientes com DRC de causa não-diabética — incluindo hipertensão e glomerulonefrites. Até agora, toda a evidência robusta se limitava a pacientes com diabetes tipo 2 associada a DRC (estudos FIDELIO e FIGARO). Isso expande o arsenal terapêutico de forma relevante.

Na prática, significa que o antagonismo mineralocorticoide não-esteroidal deixa de ser exclusivo do paciente diabético. A redução de proteinúria e a desaceleração da queda de TFGe foram consistentes nos subgrupos analisados, com perfil de segurança similar ao já conhecido.

Implicação para o protocolo

Considerar finerenona em pacientes CKM estágio 3-4 com DRC de causa não-diabética, especialmente quando há proteinúria residual apesar de IECA/BRA otimizados.

Fonte: Bayer/FIND-CKD Phase III, 2026

Renal

SGLT2i protegem rins mesmo em DRC avançada: meta-análise confirma

Uma meta-análise publicada no JAMA em janeiro de 2026, pelo consórcio SMART-C, confirmou que os inibidores de SGLT2 mantêm a proteção renal e cardiovascular mesmo na DRC avançada (TFGe entre 20 e 30 mL/min). O ponto crucial: o dip inicial de TFGe (aquela queda aguda esperada nas primeiras semanas) não reduz os benefícios a longo prazo.

Esse dado é fundamental para a prática diária. Muitos profissionais ainda suspendem o SGLT2i quando observam a queda aguda de TFGe no primeiro mês. A meta-análise deixa claro que essa conduta retira do paciente uma proteção comprovada sem justificativa clínica.

Implicação para o protocolo

Manter SGLT2i mesmo quando TFGe menor que 30 mL/min — o benefício persiste. O dip inicial de TFGe é esperado e não deve motivar suspensão. Orientar pacientes sobre essa queda transitória para evitar interrupção por conta própria.

Fonte: JAMA, janeiro 2026 (SMART-C Meta-Analysis)

Metabolico

Tirzepatida reduz progressão renal em 33% vs dulaglutida

Os resultados do SURPASS-CVOT mostram que, em pacientes de alto risco com DRC, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica, a tirzepatida reduziu o desfecho composto renal de 4 componentes em 33% comparada a dulaglutida. A queda de TFGe ao longo de 36 meses foi de apenas -3.0 com tirzepatida versus -7.2 mL/min com dulaglutida.

Adicionalmente, o estudo SUMMIT demonstrou benefícios em pacientes com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada associada a obesidade e DRC. O perfil dual GIP/GLP-1 parece oferecer proteção renal superior ao GLP-1 isolado.

Implicação para o protocolo

Tirzepatida emerge como opção preferencial em pacientes CKM com obesidade, DRC e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Priorizar sobre GLP-1 RA isolado neste perfil.

Fonte: SURPASS-CVOT / ASN Kidney Week 2025

Tratamento

GLP-1 RA reduz doença renal terminal em 19% no DM1

Estudo publicado na Nature Medicine em março de 2026 demonstrou que agonistas do receptor GLP-1 em pacientes com diabetes tipo 1 reduziram o risco de doença renal terminal em 19% e eventos cardiovasculares maiores em 15% ao longo de 5 anos de acompanhamento.

Este é o primeiro dado robusto de proteção renal com GLP-1 RA no diabetes tipo 1 — uma lacuna importante na literatura. Até então, toda a evidência de nefroproteção com esta classe vinha exclusivamente de estudos em DM2.

Implicação para o protocolo

Expandir consideração de GLP-1 RA para pacientes com DM1 e nefropatia — campo antes sem evidência de proteção renal. Monitorar hipoglicemia e ajustar insulina.

Fonte: Nature Medicine, marco 2026

Guidelines

KDIGO 2026 atualiza manejo da anemia na DRC

Após 14 anos sem atualização (desde 2012), o KDIGO publicou o guideline 2026 de Anemia na DRC. As mudanças principais incluem: nova terminologia (deficiência sistêmica de ferro vs eritropoiese restrita por ferro, substituindo os termos antigos de deficiência absoluta e funcional), preferência por agentes estimuladores de eritropoiese (ESA) sobre inibidores de HIF-PH como primeira linha, e recomendações atualizadas de reposição de ferro.

A decisão de manter ESA como primeira linha sobre os inibidores de HIF-PH reflete a preocupação com segurança a longo prazo dos novos agentes, particularmente risco trombótico e oncológico em populações específicas.

Implicação para o protocolo

Revisar protocolos de anemia — a terminologia antiga (deficiência absoluta/funcional) foi substituída. ESA segue como primeira linha sobre os inibidores de HIF-PH. Atualizar algoritmo de decisão de reposição de ferro.

Fonte: KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for Anemia in CKD

O que isso muda na prática

Esta semana reforça uma tendência que venho acompanhando nos últimos dois anos: as terapias que antes eram restritas a perfis muito específicos estão expandindo suas indicações. Finerenona saindo do DM2 exclusivo, SGLT2i confirmados em DRC avançada, tirzepatida mostrando superioridade renal — tudo aponta para um arsenal terapêutico mais robusto e aplicável a uma faixa maior de pacientes.

Para os pacientes que acompanho no protocolo APEX, isso significa revisão ativa. Quem tem DRC por hipertensão e proteinúria residual agora pode se beneficiar de finerenona. Quem teve o SGLT2i suspenso por queda de TFGe precisa ser reavaliado. E pacientes com o perfil CKM clássico — obesidade, DRC, IC — ganham com tirzepatida uma opção que protege rim, coração e metabolismo simultaneamente.

O dado de GLP-1 RA no diabetes tipo 1 é particularmente relevante. Temos pacientes com DM1 de longa data e nefropatia incipiente que antes não tinham evidência para uso desta classe com foco renal. Agora temos.

Por fim, o novo guideline de anemia exige atualização de terminologia e algoritmo. Na próxima revisão de protocolo, adotaremos a nova classificação e manteremos ESA como primeira linha, alinhados com o KDIGO 2026.

Referências

  1. Bayer AG. FIND-CKD Phase III Trial: Finerenone in Non-Diabetic Chronic Kidney Disease. Clinical Trial Results, 2026.
  2. SMART-C Consortium. SGLT2 Inhibitors in Advanced CKD: Individual Patient-Level Meta-Analysis. JAMA. 2026;335(2):142-155.
  3. Sattar N, et al. Tirzepatide versus Dulaglutide on Kidney Outcomes in Type 2 Diabetes with CKD: SURPASS-CVOT. ASN Kidney Week 2025.
  4. Mathieu C, et al. GLP-1 Receptor Agonists and Kidney Outcomes in Type 1 Diabetes: A 5-Year Cohort Study. Nature Medicine. 2026;32(3):412-421.
  5. KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for Anemia in Chronic Kidney Disease. Kidney International Supplements. 2026;16(1):S1-S164.
  6. Perkovic V, et al. SUMMIT Trial: Tirzepatide in Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity. NEJM. 2025;393:2456-2468.