Terceira edição do Boletim Semanal CKM. Nesta semana, os destaques incluem a publicação do SURPASS-CVOT no NEJM (tirzepatida vs dulaglutida em DCVA), novos dados renais da semaglutida por gravidade de DRC no FLOW, proteção renal sustentada da tirzepatida em 176 semanas, conclusões da conferência KDIGO sobre IC e DRC, guideline ACC/AHA 2026 de dislipidemia e a integração MASLD-CKD no eixo CKM.

Destaques da Semana

Cardiovascular

SURPASS-CVOT: Tirzepatida não-inferior à dulaglutida em MACE — e sinaliza superioridade em desfecho expandido

O estudo SURPASS-CVOT, publicado no NEJM, avaliou tirzepatida vs dulaglutida em 13.299 pacientes com DM2 e DCVA estabelecida ao longo de 4 anos. O desfecho primário (MACE-3: morte CV, IAM ou AVC) ocorreu em 12,2% com tirzepatida vs 13,1% com dulaglutida — não-inferioridade comprovada (p=0,003), sem superioridade estatística (p=0,09).

Porém, o MACE expandido de 4 pontos (incluindo revascularização coronariana) foi significativamente reduzido (HR 0,88; IC 95% 0,88–0,96). A mortalidade por todas as causas também foi menor, impulsionada por mortes não-cardiovasculares. HbA1c caiu 1,66% (para 6,7%) vs 0,88% (para 7,5%), e o peso reduziu 11,6% vs 4,8%. É o primeiro grande trial comparando dois incretinomiméticos em desfechos cardiovasculares.

Implicação para o protocolo

A tirzepatida demonstra segurança CV frente a um comparador ativo comprovado. Os sinais de superioridade em MACE-4 e mortalidade total favorecem seu uso em pacientes CKM com DM2 e DCVA. Considerar como opção preferencial quando coexistem obesidade, DM2 e alto risco CV.

Fonte: Sattar N, McGuire DK, et al. N Engl J Med. 2025;393:2373-2385 (SURPASS-CVOT)

Renal

Semaglutida protege rim em todo o espectro de DRC: subanálise do FLOW por gravidade

Publicação no CJASN (fevereiro 2026) apresentou subanálise do FLOW trial estratificada por gravidade de DRC. Entre 3.533 pacientes com DM2 e DRC, a semaglutida reduziu o desfecho renal composto (falência renal, queda de 50% na TFGe, morte renal ou CV) de forma consistente em todos os estratos de TFGe e albuminúria — incluindo DRC avançada.

No Congresso Mundial de Nefrologia 2026, dados mecanísticos do estudo REMODEL detalharam benefícios renais diretos da semaglutida. A redução de 24% em desfechos renais maiores e 5% na mortalidade CV se mantiveram independentemente da gravidade da DRC. Para TFGe <60, o benefício na TFGe foi de +2,19 mL/min/1,73m² vs placebo.

Implicação para o protocolo

Não restringir semaglutida a pacientes com DRC leve/moderada. Os dados confirmam benefício em DRC avançada (TFGe <60 e até <30). Iniciar precocemente e manter mesmo com progressão. Avaliar em conjunto com iSGLT2 e finerenona para proteção máxima.

Fonte: Kidney and Survival Outcomes with Semaglutide by CKD Severity. CJASN. 2026; FLOW Trial, NEJM 2024

Metabólico

Tirzepatida reduz albuminúria em obesidade com e sem DM2: dados de 176 semanas do SURMOUNT-1

Publicação no Diabetes, Obesity and Metabolism (2026) trouxe dados de 176 semanas do SURMOUNT-1: tirzepatida reduziu a UACR em 8,4% em não-diabéticos e 31,1% em pacientes com DM2 (SURMOUNT-2), sem alterações adversas sustentadas na TFGe. Após queda inicial da TFGe-Cr nas primeiras 24 semanas, houve estabilização e recuperação parcial.

Dados adicionais no JASN (2026) confirmaram redução de albuminúria independente do uso de iRAAS ou iSGLT2, sugerindo efeito aditivo. O mecanismo envolve redução da hiperfiltração glomerular mediada pela perda de peso e melhora da resistência insulínica, além de efeitos anti-inflamatórios diretos do eixo GIP/GLP-1.

Implicação para o protocolo

Considerar tirzepatida em pacientes obesos com albuminúria, mesmo sem diabetes. A redução sustentada da UACR em 176 semanas sugere nefroproteção de longo prazo aditiva às terapias padrão (iRAAS, iSGLT2, finerenona).

Fonte: Heerspink HJL et al. Diabetes Obes Metab. 2026 (SURMOUNT-1, 176 sem); JASN 2026

Tratamento

KDIGO Controversies Conference: IC + DRC — avanços e lacunas na terapia combinada

As conclusões da Conferência de Controvérsias KDIGO sobre IC e DRC foram publicadas no JACC: Heart Failure e Kidney International (2026). Quatro grupos de trabalho abordaram fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e desenho de ensaios clínicos para pacientes com IC e DRC coexistentes.

Destaques terapêuticos: iSGLT2, inibidores do SRAA, finerenona e GLP-1 RA demonstram benefícios em ambas as populações, mas evidências em DRC avançada (TFGe <30) permanecem limitadas. A interpretação de biomarcadores exige cautela: BNP pode estar falsamente elevado pela redução do clearance renal, e a creatinina pode subestimar a gravidade da IC.

Implicação para o protocolo

Adotar abordagem integrada cardiorrenal: não tratar IC e DRC como entidades separadas. Usar iSGLT2 + finerenona + GLP-1 RA conforme indicação, mesmo em DRC moderada-avançada, com monitorização intensificada. Interpretar biomarcadores com cautela na DRC.

Fonte: KDIGO Controversies Conference: Heart Failure and CKD. JACC Heart Fail. 2026; Kidney Int. 2025

Guidelines

ACC/AHA 2026 Dislipidemia: equação PREVENT com TFGe, metas de LDL-C e inclisiran

A diretriz ACC/AHA 2026 substitui o guideline de 2018 e introduz a equação AHA PREVENT para estratificação de risco em 10 anos — com estimativas 40–50% menores que os Pooled Cohort Equations. Crucialmente, a PREVENT incorpora TFGe e UACR, integrando função renal à estratificação cardiovascular pela primeira vez numa diretriz de lipídios.

Metas de LDL-C: <55 mg/dL para DCVA de muito alto risco e <70 mg/dL para DCVA sem alto risco. Quando estatinas + ezetimibe não atingem a meta, PCSK9i ou inclisiran (siRNA anti-PCSK9, injeção semestral) são recomendados. O escopo expandido inclui triglicerídeos e Lp(a) como alvos terapêuticos independentes.

Implicação para o protocolo

Atualizar calculadora de risco para PREVENT (inclui TFGe/UACR). Metas de LDL-C mais agressivas em DCVA. Considerar inclisiran para pacientes CKM com dislipidemia refratária. A integração renal na estratificação CV reforça o conceito CKM na prática lipidológica.

Fonte: 2026 ACC/AHA Guideline on Dyslipidemia. Circulation. 2026; JACC. 2026

Epidemiologia

MASLD amplifica risco cardiovascular e renal na DRC: consolidação do eixo hepático no espectro CKM

Artigos no Clinical Kidney Journal e PMC (2026) consolidaram evidências sobre a interação MASLD–DRC no espectro CKM. A MASLD afeta ~30% dos adultos globalmente e, quando coexiste com DRC, amplifica significativamente o risco cardiovascular. Os mecanismos compartilhados incluem resistência insulínica, inflamação crônica e fibrose progressiva.

O guideline japonês de MASLD 2026 (Hepatology Research) incorporou recomendações específicas para rastreamento renal em pacientes com esteatose. Para nefrologistas, a mensagem é clara: rastrear MASLD em pacientes CKM com síndrome metabólica, usando FIB-4 como triagem e elastografia hepática para confirmação. GLP-1 RA e iSGLT2 oferecem proteção tripla (cardiorrenal + hepática).

Implicação para o protocolo

Implementar rastreamento de MASLD em pacientes CKM com síndrome metabólica (FIB-4 + elastografia). A presença de MASLD deve elevar prioridade terapêutica. GLP-1 RA e iSGLT2 convergem em proteção cardiorrenal + hepática.

Fonte: Clin Kidney J. 2026; Hepatology Research (MASLD Guidelines 2026); PMC Review 2026

O que isso muda na prática

Esta semana marca a entrada definitiva na era dos comparativos ativos em terapia cardiometabólica. O SURPASS-CVOT é o primeiro grande trial a colocar dois incretinomiméticos frente a frente em desfechos cardiovasculares duros. A não-inferioridade da tirzepatida versus dulaglutida — com sinais de superioridade em MACE-4 e mortalidade total — posiciona o agonismo dual GIP/GLP-1 como referência no paciente CKM com DM2 e DCVA.

A consolidação dos dados renais é igualmente transformadora. A subanálise do FLOW mostrando benefício da semaglutida em todo o espectro de DRC (incluindo TFGe <30), combinada com os 176 semanas do SURMOUNT-1 demonstrando redução sustentada de albuminúria com tirzepatida em pacientes sem diabetes, elimina as últimas barreiras para uso de incretinomiméticos na nefroproteção.

A diretriz ACC/AHA 2026 de dislipidemia traz uma revolução silenciosa para o nefrologista: a equação PREVENT incorpora TFGe e UACR na estratificação de risco CV. Pela primeira vez, a função renal entra formalmente no cálculo lipidológico — concretizando a premissa CKM de que rim e coração compartilham o mesmo risco.

Por fim, a consolidação do eixo MASLD–DRC reforça que o paciente CKM precisa de avaliação multissistêmica. Fígado, rim e coração estão conectados por inflamação, fibrose e resistência insulínica. O arsenal terapêutico (GLP-1 RA, iSGLT2, finerenona) oferece proteção convergente — mas só funciona se rastrearmos todas as frentes.

Referências

  1. Sattar N, McGuire DK, Pavo I, et al. Cardiovascular Outcomes with Tirzepatide versus Dulaglutide in Type 2 Diabetes (SURPASS-CVOT). N Engl J Med. 2025;393:2373-2385.
  2. Kidney and Survival Outcomes with Semaglutide by CKD Severity in the FLOW Trial. Clin J Am Soc Nephrol. 2026.
  3. Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al. Effects of Semaglutide on CKD in Patients with Type 2 Diabetes (FLOW). N Engl J Med. 2024;391:109-121.
  4. Heerspink HJL, Sattar N, et al. Association of Tirzepatide With Kidney Parameters in Participants With Obesity From SURMOUNT-1 Over 176 Weeks. Diabetes Obes Metab. 2026.
  5. Kidney Parameters with Tirzepatide in Obesity with or without Type 2 Diabetes. J Am Soc Nephrol. 2026.
  6. KDIGO Controversies Conference: Kidney Disease and Heart Failure: Recent Advances and Current Challenges. JACC Heart Fail. 2026.
  7. Kidney Disease and Heart Failure: Conclusions from a KDIGO Controversies Conference. Kidney Int. 2025.
  8. 2026 ACC/AHA/AACVPR/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia. Circulation. 2026.
  9. 2026 Dyslipidemia Guideline-at-a-Glance. JACC. 2026.
  10. Impact of MASLD on Cardiovascular Disease Risk in CKD: Interconnections and Management. Clin Kidney J. 2026.
  11. The MASLD-CKD Axis: Intersecting Pathways and Opportunities for Early Intervention. PMC. 2026.
  12. Evidence-Based Clinical Practice Guidelines for MASLD 2026. Hepatology Research. 2026.